Um homem andava por um corredor escuro, pensativo. Ele tinha de falar com eles, era urgente demais. Cometera um assassinato, tinha certeza que aniquilara seus mais prováveis inimigos. Mas eles tinham lhe escondido algo. Um objeto de poder imenso, que era seu por natureza.
O corredor terminava numa porta preta de madeira. Ela era contornada por um aro de ferro muito enferrujado. Achava aquele lugar nojento, mas precisava estar ali, senão jamais chegaria perto de lá. Sentindo uma imensa náusea ao tocar a maçaneta ensebada, ele virou-a e a porta abriu com um rangido.
A sala era totalmente diferente do corredor de pedra mal iluminado. Era muito bem iluminada, com cores vivas. Suas paredes eram carregadas de prateleiras cheias de numerosos objetos que zuniam, centenas de livros e, bem no centro, acima da lareira em que crepitavam chamas vermelho-sangue, estava um quadro com dois jovens sorridentes, um a cópia do outro.
Passando particularmente longe de um vidro que expelia um líquido viscoso cinza com cheiro de acre, ele alcançou o centro da sala, em que havia uma pequena mesa circular. Nessa mesa repousava uma esfera transparente do tamanho de uma bola de basquete e, ao seu lado, uma sineta.
Ele pressionou o dedo três vezes no botão de cima e o sino tocou brevemente. Logo depois um jovem apareceu de uma porta localizada num canto. Ao chegar, pareceu levemente apreensivo, mas abriu um largo sorriso ao ver quem estava plantado no meio de sua sala.
– Ah, Samuel – disse sorridente – Sabia que viria aqui!
– Claro – murmurou Lycan de mau humor.
O jovem virou-se e gritou para a porta de onde viera:
– Ei, Joe! Veja só quem veio nos fazer uma visita!
Outro jovem cruzou a porta, igualmente apreensivo, mas sorriu ao ver Lycan. O homem percebeu que ele era exatamente igual ao outro.
– Samuel! Sabia que viria! – disse Joe.
– Foi o que disse a ele – respondeu Jake.
– Já chega – explodiu Lycan – Vim porque preciso de uma coisa muito importante.
Os gêmeos se entreolharam.
– Então...? – perguntou Jake.
– Perdi... algo muito importante – respondeu Lycan – E preciso que vocês achem para mim.
– Quando você perdeu isso? – perguntou Joe.
– Há algum tempo.
– Quando? – insistiu Jake.
– Sei lá, alguns meses – respondeu Lycan, irritado – Mas não vejo em que isso vai ajudar!
Jake e Joe começaram a rir.
– Samuel, somos os Gêmeos do Oráculo, filhos de Dinah Passado, é verdade – explicou Jake.
– Mas infelizmente não possuímos o poder de nossa falecida mamãe ou da nossa viva, embora meio ruim do juízo, tia Cassandra Futuro – completou Joe e Lycan teve uma rápida contração ao ouvir o nome da vidente – Apenas vemos o presente.
– Ou seja, se perdeu algo há meses, infelizmente não podemos ajudá-lo.
– A não ser que você procure a tia Cassandra, ela sim vai poder lhe responder o que procura.
– Isto é, se você ainda conseguir ouvir alguma palavra do que ela diz. Ela não fala direito há alguns meses. Foi muito estranho.
– Mas você ainda pode tentar as bruxas Parcas. Elas sim podem dizer o passado, o presente e o futuro.
– O único problema é que faltam meses para o próximo eclipse – comentou Jake – Ou seja, elas devem estar aproveitando agora as praias do Distrito da Água.
– Já imaginou, Jake, as Bruxas do Eclipse de maiô?! – riu Joe.
Lycan estava tentando se controlar, mas não conseguiu.
– Calem a boca! Vocês são inúteis, nem sei porque vim aqui!
– Será que é porque nós somos lindos, Joe?
– Lindo sou eu, Jake. Você é feio.
Os dois caíram no riso outra vez. Lycan deu as costas a eles e murmurou um “Adeus” antes de cruzar a porta. Depois de fechá-la, ele ainda ouviu de um dos Gêmeos do Oráculo:
– Volte sempre, Samuel!
“Quando eu voltar, vocês já estarão mortos”, pensou Lycan amargamente.
Seth abriu os olhos tão repentinamente que ele podia jurar sentir a última luz de seu sonho passar por eles em uma fração de segundo. Se arrependeu disso, pois a luz que entrava pelas cortinas mal-fechadas da noite anterior furou seus olhos amarelos até o cérebro.
Levantou-se de uma vez, esfregando o rosto. Sua cabeça latejava, ainda lembrando das batidas no chão frio do pátio do colégio. Latejava tanto que o garoto resolveu tomar banho para esfriá-la. Foi então que percebeu que devia fazer quase vinte e quatro horas que tomara o último banho. Sentindo-se um lixo, caminhou até o banheiro e trancou a porta.
Observou tristemente sua própria imagem no espelho. Um arranhado vermelho se juntou ao seu queixo e havia marcas de sangue seco embaixo de seu nariz. E, virando-se para outro lado, tirou a roupa vagarosamente e ficou embaixo do chuveiro, a água escorrendo por cada centímetro de seu corpo. Deixou que a água caísse, que levasse consigo todos os seus recentes problemas. Tivera um sonho esquisito, só não conseguia se lembrar...
Enxugou-se, vestiu uma roupa qualquer e desceu. A cozinha, a sala, o corredor e o banheiro estavam vazios, quietos e silenciosos. Seth olhou o relógio, eram dez horas da manhã.
– Vô?
Não havia sinal de Josef, mas a mesa estava posta e, bem no centro, havia um bilhete. Seth apalpou-o entre os dedos e leu-o com a caligrafia do avô.
"Seth,
Não se preocupe, fui ao mercado comprar comida, pois o armário está vazio. Sinceramente, você come demais! A Sra. Diaz ficou de fazer um bolo para mim. Se ela entregar a você, pode deixar na mesa. Tem pão quente no forno.
Vovô Lycanthunder"
Seth dobrou o bilhete e guardou-o numa gaveta. Sentou-se, serviu-se de leite, ovos, pão, queijo, presunto, mortadela, um suco de laranja e uma maçã. Sentindo-se estufado, percebeu que acabara com toda a comida da mesa.
A campainha tocou. Seth levantou-se com a barriga doendo de tanta comida e atendeu a porta.
– Oi, Seth, querido!
– Oi, Sra. Diaz.
A vizinha roliça estava parada na porta, com um sorriso que cortava seu rosto redondo de um lado ao outro.
– Seu avô está? – perguntou ela.
– Hum, não – respondeu o garoto – Ele foi ao mercado.
– Ah, que pena – disse a Sra. Diaz, um pouco desapontada – Bem, não faz mal, contanto que você entregue a ele esse bolo de laranja que acabei de tirar do forno.
– Tudo bem. Vou deixar na mesa para ele.
– Obrigada querido – disse ela, apertando suas bochechas – Até mais.
– Até.
Seth levou o bolo morno até a mesa enquanto refletia como o avô não engordava depois de tanto bolo. Então percebeu que ele é quem comia quase tudo. Teria sorte se um dia não acabasse como a Sra. Diaz.
Enquanto pousava a bandeja em seu lugar, escutou um barulho na caixa de correio. Correu até a porta, atravessou-a, e alcançou a caixa, que possuía o nome falso de Heyfield.
Seth examinou ou envelopes nos dedos.
– Hum... Conta, conta, conta, a revista semanal do vovô, carta do colégio, conta, uma outra carta para mim...
O garoto estranhou a existência de duas cartas para ele. Levou todas para dentro, mas ficou com duas enquanto sentava na cadeira, arrancava um pedaço do bolo de laranja e comia-o.
A primeira era do Colégio Lycantrix, a outra do Prof. Jackson. Resolveu ler a do colégio primeiro.
"Prezado Sr. Heyfield,
Informamos que o senhor foi expulso do Colégio de Ensino Fundamental Lycantrix, por motivos de uma doença grave que o atinge e que vem de sua descendência. Pedimos ao senhor que não tente matricular-se novamente em nossa escola, nem em nossas filiais. Também informamos que seu 'amigo', Prof. James Jackson foi expulso de nossa Instituição por tê-lo ajudado em sua fuga.
Atenciosamente,
Willian Baxter
Diretor da Escola Lycantrix"
Seth ficou boquiaberto. O Prof. Jackson havia sido expulso por sua causa! Somente porque o ajudara a fugir! Rapidamente rasgou o outro envelope, que era apenas uma mensagem de seu antigo professor:
"Seth, enviei essa mensagem o mais rápido que pude, mas não sei se chegou a tempo, não antes da carta oficial da escola. Sei que você vai primeiro ver a carta, por isso quero que saiba que, como você leu, fui expulso. Mas não se culpe, a culpa não foi sua. Já estava cheio do Sr. Baxter, só faltava isso para eu cair fora. Mas sua situação me abriu os olhos para a realidade, para os mestiços. Não se engane, em breve farei uma instituição para acolher os mestiços e dar uma educação a eles, além de abrigá-los. E, quem sabe, seja em sua homenagem o nome dela.
Até breve.
J. J."
– Bom, Seth, cheguei. Nossa, o mercado estava lotado! Comprei umas uvas para você, sei como Elfos gostam de uvas. A Sra. Diaz passou aqui? Seth? O que aconteceu, meu neto?
Seth ficara imóvel na cadeira. O avô estranhou essa atitude e perguntou se ele estava bem. Em vez de responder, entregou nas mãos de Josef as cartas que recebera, especialmente a do professor. Enquanto o avô lia, Seth manteve-se pensativo.
De repente, Josef colocou bruscamente as cartas na mesa e encarou a face do neto.
– Já está na hora de fazer alguma coisa, Seth.
– Como o quê? – perguntou o garoto.
– Ficar aqui sentado é que não. Seth, por acaso eu terminei de contar-lhe a história de Lycan, ontem?
Seth pensou um pouco.
– Não. Eu fui dormir antes do senhor terminar.
– Então venha comigo.
Os dois subiram as escadas que levavam para o sótão. Havia uma porta no teto que dava para o quarto. Josef não teve problemas para levantá-la e, assim, segundos depois os dois estavam lá.
O sótão da casa estava muito empoeirado e cheio de teias de aranha. Seth estava se perguntando o porquê de eles estarem ali, mas mesmo assim não falou nada. Fazia tempo que ele não entrava no sótão, por isso encarou tudo como uma novidade.
Driblando caixas, malas, caixotes e depósitos, Josef chegou ao lugar mais escondido do sótão, de onde retirou uma grande caixa. Então, embaixo dela, surgiu um baú já desgastado pelo tempo e com as iniciais L.T.
– O que significa L.T., vô?
– É a abreviatura de Lycanthunder, filho – respondeu o outro.
Seth resolveu ajudar o avô a puxar o baú, pois o velho não estava conseguindo muito bem. Depois de arrastarem a caixa até o centro do sótão, Josef sentou-se e tentou abrir a tampa com uma chave velha.
– Será que a gente não podia abrir esse baú lá embaixo? – perguntou Seth.
– Não, ele é pesado demais para tirar daqui. Estou quase conseguindo... aqui! Pronto! Seth, me ajude a levantar.
A tampa era a parte mais pesada do baú. Depois de levantada, mostrou-se um livro muito empoeirado e, embaixo dele, vários pedaços de papel que mais pareciam recortes de jornal corroídos pelo tempo, coisa de séculos anteriores.
Josef pegou o livro e soprou-o, o que levantou muita poeira. Depois de tossir bastante, o avô virou as páginas grossas do livro e começou sua história.
– Seth, o que você vai saber agora muitas pessoas não acreditariam. Quando meu pai me contou, eu não acreditei. Mas espero que você compreenda e que acredite nisso.
– Certo – concordou o garoto.
– Bom, o que você sabe sobre Lycan não é de todo verdade, nem de todo mentira. Este livro foi escrito por Cassandra Futuro, uma das Ciganas do Oráculo, há cerca de mil anos. Um pouco antes de Lycan sumir – ele não morreu exatamente – ela olhou para o futuro e escreveu suas anotações aqui. Ou seja, tudo o que está aqui é verdadeiro.
“Como você sabe, Lycan teve cinco filhos. E cada um deles tinha um fragmento do poder da Luz, os cinco elementos da natureza. Como você também sabe, eles retiraram o poder do pai, então ele sucumbiu ao único poder que lhe restou: o poder das Trevas.
“Você também já deve saber que Lycan foi atrás do filhos e tentou tirar os Talismãs deles. Esses Talismãs eram na verdade cápsulas que armazenavam o poder dos elementos. Lycan matou os filhos, mas não conseguiu os Talismãs, que estão guardados até hoje nos castelos que existem nos Distritos. Acho que isso você já sabe.
“Agora o que muita gente desconhece é o fato de que Lycan não se arrependeu de seus atos nem definhou até a morte. Não, ele foi até o fim, atrás dos Talismãs. Consultou todos que poderiam dizer onde estavam. Até que descobriu que os Talismãs eram guardados por titãs e sábios. Mas ele descobriu mais. Uma coisa que podia estragar seus planos... ou até ajudar a realizá-los.
“Acontece que, antes de morrer, Derek Lycanthunder fez um juramento perante aos Deuses e aos Espíritos Anciões. Ele jurou que voltaria depois de mil anos para destruir o legado de Lycan. Esse ser, a reencarnação de Lycanthunder, o escolhido para guiar os herdeiros dos filhos de Lycan, foi chamado de Kathegetes Omega.
– Kathegetes Omega? Porque esse nome?
– Significa “Líder do Fim” numa língua antiga e morta.
– E o que seria esse fim? – perguntou Seth.
– A destruição final. O apocalipse. O fim dos tempos. Chame como quiser. – respondeu Josef.
– Mas... se no final vai tudo ser destruído, pra que esse tal líder guiaria os outros herdeiros até o “fim”?
– Porque você pode decidir o destino de Lycantrix. Se ela vai ser destruída ou não...
– Eu? Por que eu? – perguntou Seth, exasperado, já sabendo o que viria depois.
– Porque você é o Kathegetes Omega!
Seth caiu para trás. Por que ele?!
– Mas... mas... não pode ser eu! Eu... tenho só catorze anos! Como eu posso guiar mais quatro pessoas até o “fim” se eu não posso nem sair nas ruas sem ter o perigo de ser apedrejado ou preso!
– Seth, você está se prendendo muito a essa história de “fim”. Você não vai sair andando por aí com mais quatro amigos pra chegar um dia e acabar tudo! Não! Você tem uma missão!
– Missão? Que missão?
– Sua missão é conseguir os cinco Talismãs antes que Lycan consiga primeiro.
– Lycan... está vivo mesmo? Como o senhor tem tanta certeza?
– Para responder algumas perguntas suas de uma vez, vou ler um trecho do livro para você.
O maligno Lycan então disse: “Já que o poder não consegui conquistar, encobrir-me-ei em um sono profundo até que mil anos se passem e que a batalha comece. O Kathegetes Omega, ó escolhido dos Deuses, guiador dos quatro herdeiros do Bem terei o prazer de derrotar.” Então esperamos o dia em que o herói apareça e derrote o Mal que aflige a nossa Terra.
– Isso quer dizer que... eu só sou o escolhido porque faz exatamente mil anos depois que Lycanthunder jurou que voltaria, não é?
– Finalmente você compreendeu que isso não foi decidido há muitos anos. Você só é o Kathegetes Omega porque é o herdeiro de Lycanthunder que nasceu exatamente no mesmo dia da morte dele. – disse Josef.
– Certo. Sabemos que sou o escolhido para sair recolhendo os Talismãs. – disse Seth. – Tem só um pequeno problema que o senhor ainda não respondeu: onde Lycan está?
– Isso ninguém sabe. – respondeu o avô misteriosamente. – Dizem que Lycan construiu um castelo para si, há mil anos. O problema é que ninguém sabe onde fica.
– Ah, que interessante. – resmungou o garoto, amargurado – Então, eh... por onde eu começo mesmo?
Josef pensou um pouco, em silêncio.
– Bem – disse ele, lentamente. –, talvez pelo Talismã do Raio. É o que está mais perto da gente agora.
– E como eu passo pelo tal titã? Melhor: como eu pelo menos entro no castelo? Tenho plena certeza de que eles não vão me deixar entrar lá. E como eu acho os outros herdeiros? Como eu...
– Calma, Seth – falou Josef, rindo. – Que tal parar de fazer tantas perguntas? O livro vai ajudá-lo bastante. Preste atenção nesta passagem: “Nota ao Kathegetes Omega: você irá encontrar todos os herdeiros em um só lugar.”
– Um só lugar? Mas que lugar é esse? Quando vou encontrá-los?
– Isso eu não sei – respondeu o avô. – Não fala aqui.
Então o velho começou a imaginar onde o neto poderia encontrar quatro herdeiros de Lycan.
– E... o que é isso aí mesmo? – perguntou o garoto, tentando fazer o avô acordar de seus devaneios.
– O quê? Desculpe, Seth, não ouvi.
– Ah, esses papéis que estavam embaixo do livro.
O velho olhou para dentro do baú e retirou o amontoado de papéis velhos.
– Ah, são recortes de jornal. – explicou ele – Oram, vejam só: do tempo de Lycan! Escritos à mão! Nunca tinha reparado neles antes...
Seth deixou o avô examinado os recortes e foi dar um passeio pelo sótão empoeirado. Foi olhando lentamente as malas, maletas, caixas, engradados e caixotes. Alguns tinham até conteúdos bem interessantes. Havia um caixote cheio de garrafas com líquidos viscosos e brilhantes. O garoto queria pegar um para ver o que era, só que estava muito alto e ele não conseguiu alcançar nem com as pontas dos pés. Mas estava tão perto...
– Aaaaarreeeeeee!!!
Catapum!
Várias coisas aconteceram num intervalo de poucos segundos. Seth, que estava na ponta dos dedos, escorregou e caiu sobre a pilha de malas. Todas elas caíram sobre o garoto; o caixote caiu com estrépido e todas as garrafas se espatifaram no chão. O líquido viscoso errou a cabeça de Seth por pouco e o ácido corroeu o piso e abriu um buraco de onde dava para ver o segundo andar da casa.
– Você está bem, Seth? – perguntou Josef desesperado, que largara os jornais no chão e correu para socorrer o neto.
– Sim, mas essas malas são muito pesadas. – respondeu o garoto, dolorido. – O que é que tem nelas?
– Hum, várias coisas, livros, coisa velha da antiga mudança... – respondeu o avô, que examinava o buraco deixado pelo ácido.
Mas uma coisa atraiu a atenção de Seth naquele momento, e não era a sua sorte de ter escapado por pouco da mira do líquido. O papel de parede que ficava atrás da pilha de malas estava descascado, mas não mostrava uma sólida parede de tijolos, como as outras. Não, era um buraco, de onde saía uma fraca luz amarelada.
– Mas o que é isso?
– Quê? – perguntou Josef, distraído.
Então se deparou com o neto rasgando o papel de parede, mostrando um pequeno túnel do tamanho de um armário de vassouras.
– Seth o que você está...?
Seth não precisava ter dado um grito de extrema surpresa para atrair a atenção do avô para o buraco. Foi então que seu coração quase parou quando viu o que estava em sua frente.
Entre teias de aranha, em cima de um pedestal, jazia um medalhão do tamanho de um ovo de cisne. Arredondado na frente e plano atrás, como se tivessem passado uma navalha extremamente precisa, o objeto que estava nas mãos de Seth parecia ser feito com o cristal mais duro do universo. E, de dentro dele, uma espécie de fumaça amarela enchia todo o espaço onde, na frente arredondada da cápsula, estava desenhado um raio negro, da cor do contorno do objeto.
– Não pode ser... – balbuciou Josef – Não aqui...
– Acho que não é só isso, vô – disse Seth, apontando para sua frente.
E, como se não bastasse, atrás do Talismã do Raio haviam duas espadas enterradas no cabo até a bainha. O garoto e o avô se precipitaram para frente das espadas e as arrancaram das teias de aranha da parede. Enquanto Josef ficou admirando a bainha tricolor de vinte centímetros de uma das espadas – branco, amarelo e preto – e passando seus dedos longos nos raios gravados nela, Seth arrancou o cabo de uma só vez e observou admirado.
As lâminas de um metro e dez centímetros de comprimento pareciam ser feitas da prata mais reluzente que existia. O garoto pensou em girar a espada para comprovar sua extrema leveza, mas seria um perigo num túnel apertado daqueles.
– Isso é impossível – disse Josef. – Como isso pode ter vindo parar aqui? Não, tem alguma coisa errada nessa história.
– Relaxa, vô – comentou Seth enquanto vislumbrava a espada.
O garoto sempre fora fissurado por espadas desde pequeno, e sabia o nome de cada uma delas. Aquelas espadas eram uma mistura de sabres com katanás, uma mais bonita que a outra. Foi então que percebeu a presença de pequenos pinos de encaixe na lâmina e na bainha.
– Vô, me arranja essa outra espada, por favor – pediu Seth.
A segunda tinha pequenos buracos em vez de pinos. Seth encostou as duas espadas, com um pequeno giro, uma se encaixou perfeitamente na outra, formando uma larga espada de duas mãos.
Seth deu um sorriso de alegria, que não foi compartilhado por seu avô, que continuava no mesmo lugar, murmurando.
– Ah, Josef, se acalma! Foi uma sorte danada, pelo menos não preciso mais ir atrás do Talismã do Raio, ele veio fácil, fácil, para mim...
– Mas... isso não tem lógica! Como...
– Será que não é um túnel? – perguntou o garoto, passando os dedos na parede. – Um túnel que dá no castelo?
– Não dá, estamos no sótão, se fosse no porão, pelo menos... – murmurou Josef.
Seth deu a volta no pedestal e rumou para o sótão.
– Bom, vou no quintal, testar a espada. E vou levar o Talismã também – disse pegando o objeto – Irei ver se dá certo em mim.
E saiu. Depois de alguns minutos, Josef acordou de seus pensamentos com um tranco e correu até uma janelinha que havia no sótão que dava para o quintal.
– Seth, não! – gritou ele lá de cima.
O garoto estava com a espada larga numa mão e o Talismã na outra. Ao ouvir o grito do avô lá de cima, gritou em resposta:
– O quê?
– Seth, pelo amor dos Deuses, não ponha o Talis...
Mas já era tarde demais. Assim que a fria corrente passou pela sua cabeça, coisas indescritíveis aconteceram com seu corpo em segundos.
Uma onda elétrica correu por seus ossos, dando uma sensação impressionante, ao mesmo tempo em que seus braços engrossaram um pouco e seu corpo levitou; ele sentiu círculos de energia ao seu redor e uma coragem súbita se apoderou dele, uma coragem que o fazia sentir que podia encarar qualquer desafio. Então, do mesmo jeito que começou, acabou. Ele caiu no chão estatelado e uma vontade suprema se apoderou dele.
Seth separou as duas espadas e, manuseando-as como sempre tivesse feito isso, ele saiu rapidamente em direção ao pomar. Com uma agilidade e uma destreza impressionantes, o garoto podou as árvores que Josef ia limpar e, com dois golpes rápidos, dividiu um tijolo em quatro partes iguais.
Espantado com seu feito, olhou para cima e encarou divertido o rosto petrificado do avô na janelinha lá em cima.
Em questão de minutos, Josef já estava no quintal e, contemplando o neto, disse:
– Seth, isso é realmente impressionante!
– Veio com o Talismã – disse o garoto animado – As habilidades.
Mais sério, o avô chegou mais perto.
– Mas você sabe o que isso significa, não é?
– O quê? – perguntou Seth.
– Você já pode ir atrás dos Talismãs, Seth – respondeu o avô – E quanto antes melhor, sabe. Provavelmente Lycan já acordou.
– Acordou que você diz...
– Sim, ele conseguiu se manter vivo à base do sono profundo. Mas já se passaram mil anos.
– Certo.
Ele queria por tudo adiar a partida, mas percebeu que ele não podia fazer nada para escapar do que lhe esperava.
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terça-feira, 21 de abril de 2009
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A leitura desses capítulos foi prazerosa, intrigante e cheia de expectativas para os próximos capítulos.
ResponderExcluirContinue assim!
Concordo plenamente. Incrível como o texto consegue prender o leitor.
ResponderExcluir"- Será que é porque nós somos lindos, Joe?
- Lindo sou eu, Jake. Você é feio."
Gêmeos com esse humor negro... também acho que já li em algum lugar...